O programa Piauí Inteligência Artificial é uma iniciativa do Governo do Piauí voltada para a rede pública estadual e foi um dos laureados com o Prêmio Rei Hamad Bin Isa Al-Khalifa. Desenvolvido pela Secretaria da Educação (Seduc), o projeto foi reconhecido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em colaboração com o Governo do Bahrein.
Anunciado no último dia 9, este prêmio celebra projetos inovadores que utilizam TICs (tecnologias da informação e comunicação) na educação. O programa do Piauí competiu com 86 iniciativas de mais de 50 países, sendo escolhido ao lado de projetos da Bélgica, Egito e Reino Unido, solidificando a posição do estado como um modelo no setor.
Um prêmio para a ética na tecnologia
Estabelecido em 2005 com apoio do Reino do Bahrein, o Prêmio Unesco Rei Hamad Bin Isa Al-Khalifa reconhece indivíduos e organizações que promovem o uso criativo das tecnologias para melhorar a educação. Na edição que celebrou seu 20º aniversário, o tema abordado foi “Preparando alunos e professores para o uso ético e responsável da inteligência artificial”.
Além do projeto brasileiro, outras iniciativas foram homenageadas:
- AI4InclusiveEducation (Bélgica): Incentiva a consciência cívica entre jovens de 10 a 18 anos através da IA, abordando questões como privacidade de dados e viés algorítmico.
- Mahara-Tech (Egito): Uma plataforma nacional de educação digital que oferece formação gratuita e inclusiva sobre IA em árabe, promovendo competências digitais na região.
- Experience AI (Reino Unido): Facilita o acesso à educação em IA para jovens de 11 a 14 anos, ajudando-os a entender a influência de tecnologias como mecanismos de busca e chatbots em suas vidas.
Cada um dos quatro projetos premiados recebeu US$ 25 mil (aproximadamente R$ 140 mil) durante a cerimônia de entrega que ocorreu na Universidade do Bahrein, sublinhando a posição do estado como líder global em educação tecnológica.
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Como funciona o Programa “Piauí Inteligência Artificial”
O Piauí foi pioneiro na América ao inserir a disciplina de Inteligência Artificial no currículo da educação básica, uma conquista que foi reconhecida pela Unesco durante a Semana da Aprendizagem Digital em Paris, em 2024.
Implementado no mesmo ano, o programa já alcança mais de 120 mil alunos do 9º ano do ensino fundamental até a 3ª série do ensino médio. Seu propósito é preparar os jovens para os desafios modernos e as oportunidades trazidas pela revolução tecnológica.
A iniciativa é fruto de uma colaboração entre a Seduc e instituições como a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a Unipampa (Universidade Federal do Pampa), o IFFar (Instituto Federal Farroupilha) e a UFPI (Universidade Federal do Piauí), além do apoio da Secretaria de Inteligência Artificial e do Google.
A estrutura curricular do programa foi um dos aspectos elogiados na premiação. Esta é projetada para desenvolver letramento em inteligência artificial através de uma abordagem teórica e prática, incluindo os eixos “pensar com a IA”, focando na aplicação da tecnologia, e “pensar sobre a IA”, que analisa seu funcionamento e implicações.
O currículo é baseado em três pilares:
- Letramento em dados: Exploração da origem, coleta, curadoria e viés dos dados que alimentam sistemas de inteligência artificial.
- Letramento em algoritmos: Compreensão dos processos lógicos e matemáticos que regem o funcionamento dos sistemas.
- Letramento em modelos: Análise da aplicação, limitações e implicações dos modelos de IA em contextos diversos.
A ética é um componente transversal, presente em todos os módulos do programa, alinhada ao tema da premiação da Unesco. Durante as aulas, são debatidas questões como curadoria de dados, aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural. A proposta pedagógica integra teoria e prática em planos diversificados.
O júri internacional considerou a iniciativa um modelo abrangente e inclusivo, capacitando educadores para o uso ético e responsável da inteligência artificial.
Estratégia de formação docente
O programa de formação de docentes, denominado SeducIA, é a solução estratégica desenvolvida pela SEDUC-PI (Secretaria de Estado da Educação) para capacitar centenas de professores, muitos deles de áreas não tecnológicas, para ministrar a nova disciplina obrigatória.
No início do programa, cerca de 800 professores foram treinados para ensinar inteligência artificial, incluindo profissionais de disciplinas como História. A formação, com carga de 60 horas ao longo de oito semanas, seguiu uma metodologia híbrida e implementou a estratégia de sala de aula invertida, através do Canal Educação (plataforma da SEDUC-PI) e sessões via Microsoft Teams.
O treinamento foi realizado por uma equipe de sete formadores, uma supervisora de tutoria e vinte tutores. Ao final, os participantes receberam certificação da Unipampa, conferindo reconhecimento acadêmico à formação.
O conteúdo do curso foi elaborado para que os professores entendessem a inteligência artificial de maneira crítica, indo além do uso básico das ferramentas. Durante a formação, os educadores exploraram três dimensões principais: como os dados funcionam, como os sistemas de IA tomam decisões e como os modelos são criados e aplicados.
Na mais recente fase de formação, iniciada em maio, 21 docentes foram capacitados como multiplicadores, representando as Gerências Regionais de Educação (GREs). A missão deles é acompanhar e orientar os novos professores da disciplina de IA, garantindo a continuidade e eficácia do processo formativo.
Boas práticas com IA
O projeto “Inteligência Artificial Piauí” prioriza a aplicação prática do letramento em IA, especialmente em escolas de tempo integral, onde a jornada ampliada facilita o desenvolvimento de projetos interdisciplinares.
Um exemplo notável é o desenvolvido no CETI Paulo Freire, em Guaribas. Neste município, que enfrenta desafios socioeconômicos e climáticos, os alunos, sob a orientação da professora Amanda Sousa, criaram um aplicativo para catalogar e distribuir sementes a agricultores familiares. O projeto integrou componentes de inteligência artificial, biologia e projeto de vida, demonstrando o potencial da IA para solucionar problemas locais.
Além do foco em projetos práticos, o envolvimento dos estudantes em IA tem se refletido em sucessos em avaliações e competições regionais. Um indicativo da eficácia do ensino obrigatório é o desempenho do Piauí em competições nacionais, onde mais de mil estudantes do estado se qualificaram para a 3ª fase da Olimpíada Nacional de Inteligência Artificial.
Apesar do sucesso e do reconhecimento internacional, o modelo de ensino de inteligência artificial no Piauí ainda enfrenta desafios em sua expansão na rede pública. Manter a qualidade da formação dos novos professores e garantir uma infraestrutura tecnológica adequada nas 508 escolas que atualmente oferecem a disciplina, especialmente em áreas remotas, são obstáculos significativos.
O estado tem progredido em termos de conectividade escolar: 74,9% das 3.699 escolas estão conectadas à internet, superando a média nacional de 59,65%, conforme indicado por um relatório recente do programa Escolas Conectadas do governo federal. No entanto, proporcionar acesso à internet estável e equipamentos adequados a todas as regiões ainda é um desafio, e é essencial garantir que todos tenham acesso igualitário à tecnologia na rede.




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